Enquanto turistas disputam garrafas de whisky Hibiki em aeroportos de Tóquio e restaurantes ocidentais seguem tratando o saquê como símbolo máximo da cultura alcoólica japonesa, milhões de japoneses continuam bebendo outra coisa: shochu.
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Servido com água quente no inverno, misturado com soda em izakayas lotados ou consumido em latinhas vendidas em konbinis (as lojas de conveniência japonesas), o destilado ocupa há décadas um espaço central na rotina etílica do país.
Ainda assim, permanece relativamente desconhecido fora da Ásia. A pronúncia, aliás, pode até soar parecida com o primo sul-coreano soju, mas as duas bebidas têm métodos de produção e perfis sensoriais bastante diferentes.
Segundo dados da National Tax Agency do Japão, o shochu ultrapassou o saquê em volume de consumo doméstico ainda nos anos 2000 e se consolidou como uma das bebidas alcoólicas mais populares do país, especialmente em regiões do sul japonês, como Kyushu.
Segundo a sommelier de saquês e sócia do Jojo Ramen, em São Paulo, Yasmin Yonashiro, o shochu ocupa no Japão um espaço semelhante ao da cachaça no Brasil, por exemplo. Ela explica que essa associação pode ter dificultado sua popularização internacional em comparação ao saquê, que é mais ligado ao universo dos vinhos e da alta gastronomia.
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“Por ser um destilado, diferente do saquê, que é fermentado, muita gente assume automaticamente que o shochu tem um teor alcoólico muito elevado”, explica. “Mas, na prática, ele costuma ter graduação alcoólica menor (cerca de 25%) do que a de muitos destilados ocidentais”, afirma.
O que é shochu?
O shochu é um destilado tradicional japonês produzido a partir de ingredientes diversos, como arroz, cevada, batata-doce, trigo-sarraceno e açúcar mascavo. Dependendo da matéria-prima, o sabor e aroma mudam completamente: alguns rótulos são leves e minerais, outros, mais terrosos, tostados ou vegetais.
Existem dois grandes estilos da bebida. O korui shochu passa por múltiplas destilações e costuma ter sabor mais neutro, frequentemente usado em drinks prontos e coquetéis. Já o honkaku shochu é destilado apenas uma vez, preservando aromas mais intensos e maior complexidade.
Garrafas de shochu de 720 ml em supermercados custam entre 700 ienes (R$ 22) e 2.500 ienes (R$ 79). Em restaurantes e izakayas, por exemplo, uma dose da bebida costuma sair de 400 ienes (R$ 12) a 800 (R$ 25).
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Patricia Telló Dürks, produtora do Sake Tomoe e especialista na bebida, explica que o sabor do shochu varia bastante conforme a matéria-prima utilizada, o que torna essa uma categoria extremamente diversa. Um shochu elaborado com arroz tende a ser mais delicado e elegante, enquanto versões produzidas com cevada podem apresentar notas que lembram cereais e castanhas. Já os shochus de batata-doce costumam ser mais intensos e aromáticos.
“De forma geral, eu descreveria o shochu como uma bebida que valoriza a identidade dos ingredientes que lhe deram origem. Diferentemente de alguns destilados que buscam neutralidade, o shochu tradicional procura preservar aromas e sabores característicos da matéria-prima utilizada”, diz Patrícia.
Mais consumido que o saquê
Embora o saquê concentre boa parte da atenção internacional, o consumo doméstico japonês conta outra história. O consumo de saquê caiu drasticamente nas últimas décadas, enquanto o shochu cresceu de forma consistente a partir dos anos 1990, segundo a National Tax Agency. O avanço foi impulsionado principalmente pela popularização dos chuhai e sours, drinks prontos geralmente feitos com base de shochu e vendidos em conveniências e máquinas automáticas.
Em regiões como Kagoshima, no sul do Japão, a bebida ocupa um espaço quase identitário. O imo shochu, feito de batata-doce, por exemplo, é servido com água quente durante o inverno, hábito que ainda surpreende turistas estrangeiros.
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“No Japão, existe muito cuidado e dedicação na produção das bebidas alcoólicas de forma geral”, explica Yasmin. “Com o shochu, acontece a mesma coisa: existem versões mais populares e outras mais refinadas, mas isso não significa que uma categoria exclua a outra.” Segundo ela, o destilado ocupa um espaço amplo dentro da cultura japonesa, assim como o saquê. “Há produtos mais acessíveis para o dia a dia, mas também rótulos únicos, artesanais e premium. Acho difícil separar entre ‘popular’ e ‘sofisticado’, porque o shochu consegue ser os dois ao mesmo tempo”, afirma.
Então por que o mundo só fala de saquê?
Nas últimas décadas, o saquê foi exportado como experiência sofisticada ligada à alta gastronomia japonesa. Restaurantes de omakase ajudaram a transformar a bebida em símbolo de refinamento, enquanto sommeliers especializados e harmonizações elaboradas reforçaram sua imagem premium.
O whisky japonês percorreu caminho semelhante. Impulsionados por premiações internacionais e pelo boom do luxo silencioso, rótulos como Hibiki e Yamazaki viraram objetos de desejo globais. O shochu, no entanto, ficou fora dessa proposta.
Sem grandes estratégias internacionais de marketing, ele permaneceu associado ao cotidiano japonês, consumido em bares informais, encontros pós-trabalho e refeições despretensiosas. Além disso, fora do Japão, muita gente sequer sabe pronunciar “shochu” (“xô-tchu” é a pronúncia correta) ou o confunde com o soju coreano.
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