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Eles pagam para ver, ou melhor, para ler… e nem estamos falando dos clubes do livro. Em um momento em que o turismo de experiência ganha cada vez mais espaço, os retiros literários surgem como uma tendência que combina pausa, natureza, hospitalidade e horas dedicadas ao prazer da leitura.
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Se antes viajar para relaxar significava reservar um spa ou um hotel-fazenda, agora há um novo desejo em circulação: embarcar para um destino tranquilo levando na mala romances acumulados na estante, marcadores de página e a promessa de finalmente ter tempo para ler sem interrupções. No Brasil, iniciativas recentes mostram que existe público disposto a investir em escapadas pensadas em torno dos livros.
O que são retiros literários?
O conceito varia conforme a proposta. Há retiros voltados à leitura contemplativa, com programação leve, rodas de conversa e experiências de bem-estar. Outros são estruturados como imersões criativas, focadas em escrita, narrativa e desenvolvimento autoral.
Fora do Brasil, o fenômeno já circula há alguns anos. Nos Estados Unidos, cresceram os chamados reading retreats e experiências voltadas a fãs de fantasia, inspiradas em universos literários e estéticas medievais. Na Europa, casas de campo, mosteiros convertidos e hotéis-boutique recebem encontros para leitores e workshops de escrita criativa.
Entre as experiências mais populares lá fora, por exemplo, o projeto britânico exclusivo para mulheres Ladies Who Lit, reúne grupos para destinos que vão de pousada aconchegante em Bali, na Indonésia, a hotel boutique 5 estrelas nos Alpes Suíços por aproximadamente R$ 21.550.
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No Brasil, o livro vira destino
Por aqui, a tendência ainda é emergente, mas começa a ganhar contornos próprios. Em vez de reproduzir modelos estrangeiros, os projetos nacionais apostam em natureza exuberante, culinária afetiva, grupos pequenos e senso de acolhimento.
Uma das iniciativas em expansão é a La Bibliotour, criada pelas amigas Eloá Figaro, 37, e Paula Álvares, 43, com foco em retiros de leitura voltados ao público feminino.
“Eu estava observando o movimento dos retiros de fantasia nos Estados Unidos, alguns outros retiros temáticos literários na Europa e alguns retiros de escrita. Eu estava com muita vontade de ir em um”, conta Eloá diretamente de Campos do Jordão, onde realizava a edição mais recente. “Como não existia algo nos moldes que eu queria, decidi criar.”
Desde o lançamento, em agosto do ano passado, a La Bibliotour já realizou cinco edições. Os destinos incluem interior de São Paulo, Campos do Jordão, São Francisco Xavier, Paraty e Sul da Bahia, sempre em propriedades cercadas por verde e atmosfera tranquila.
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O formato privilegia grupos reduzidos, atualmente, até dez pessoas, para personalizar a experiência. “Quando a participante se inscreve, buscamos conhecer preferências literárias, perfil etário, restrições alimentares e expectativas. Assim montamos programação e cardápio para que ela se sinta cuidada”, diz Figaro.

A programação vai além da leitura silenciosa. Há sugestões de livros, jogos literários, dinâmicas de mistério e suspense, yoga, massagens e momentos livres. “As mulheres cuidam muito dos outros: filhos, pais, parceiros. Existe uma lacuna de alguém que cuide delas. Eu gosto de estar aqui para preparar um café da manhã gostoso, deixar um mimo no quarto, criar esse acolhimento.”
Os retiros duram de três a quatro dias e custam, em média, a partir de R$ 3.500, em sistema all inclusive, com hospedagem, refeições e experiências inclusas.
Ler na Amazônia
Outro projeto tupiniquim, o Navegar é Preciso, acontece nas águas do Rio Negro, no Amazonas. O barco zarpa de Manaus para uma jornada de cinco dias a bordo do Grand Amazon, cruzeiro fluvial premium, e inclui passeios como o avistamento de botos-cor-de-rosa e o famoso Encontro das Águas entre os rios Negro e Solimões.
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O retiro contempla dois encontros diários com nomes da literatura – na edição mais recente, participaram os escritores Eliana Alves Cruz (Meridiana, Água de Barrela) e Itamar Vieira Junior (Torto Arado, Salvar o Fogo), além do cantor e compositor Zeca Baleiro. Os preços variam de R$ 13.700 a R$ 18.300, com pensão completa, sem incluir passagens aéreas.

Viajar para escrever
Se alguns viajam para ler, outros fazem as malas para escrever melhor. É o caso do Retiro Literário idealizado por Eduardo Spohr e Thiago Cabello, voltado a quem deseja desenvolver técnica narrativa e trocar experiências com outros autores.
O paulista Daniel Renattini, 33, aficionado por literatura, desembolsou R$ 3.400 para participar da edição de 2025 em Capela do Alto, região metropolitana de Sorocaba. “Eu sempre via isso em matérias de fora, em séries e filmes. Existia uma ideia romantizada, contemplativa, mas também parecia algo divertido e instrutivo. Fui pela curiosidade e pela busca de conhecimento técnico.”
Segundo ele, o grupo reunia cerca de 25 participantes de diferentes idades e regiões do país, de iniciantes a autores já publicados. “O perfil era muito parecido: todo mundo querendo aprimorar suas próprias histórias.”
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A programação se dividia entre aulas teóricas e práticas ao longo de quatro dias. Havia exercícios de improviso, construção de personagens, ambientação e estrutura narrativa. “Aprendi a dar mais robustez para personagens, entender caminhos para estruturar melhor o roteiro e também a dar e receber feedback.”
Mas, para além da técnica, Renattini destaca o aspecto humano da experiência. “A gente leva também o aprendizado da amizade. Conhece pessoas que estão no mesmo barco que você e talvez nunca encontraria. Muitas pessoas da edição de 2025 vão voltar em 2026 para se reencontrar.”
Por que os retiros literários crescem agora?
As jornadas literárias foram apontadas como tendência global para 2026 de acordo com o relatório Unpack 26, realizado pelo grupo Expedia, Hoteis.com e Vrbo. O levantamento ouviu 24 mil pessoas de 18 países e 91% dos viajantes se interessam por experiências voltadas para a leitura e relaxamento.
“Os amantes dos livros estão seguindo para destinos serenos como casas litorâneas, chalés e propriedades no interior para se desconectarem, relaxarem e interagirem por meio das obras, tornando as hospedagens de temporada o cenário perfeito”, explica o relatório.
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O avanço desse tipo de experiência, no entanto, pode responder a múltiplas demandas contemporâneas: exaustão digital, busca por conexão real, interesse por hobbies analógicos e valorização do descanso com propósito.
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